sexta-feira, 25 de março de 2016

Urano

Alan foi para casa o mais rápido que as quatro rodinhas do skate aguentavam. Ele havia fugido há tanto tempo daquele momento que não conseguia pensar em outra coisa a não ser fugir novamente. Ao chegar em casa e vasculhar em seu armário até chegar ao novo esconderijo que havia feito após a mudança, Alan pegou o quê queria, largou a mochila na cama e só enfiou no bolso alguns trocados.

Ele não previa que aquela sensação voltasse tão cedo, pois após o incidente com Priscila há mais de um ano, Alan tinha ido ao fundo do poço, mas aos poucos foi se recuperando e completaria nove meses sem drogas se não fosse aquela novidade amedrontadora.

Depois de ter quase tirado a vida de Priscila em apenas sete meses de namoro, Alan foi obrigado a se afastar dela abruptamente, já que ele havia estragado tudo que era valioso para Priscila. Agora, como em um pesadelo recorrente em que você sabe que está dormindo, mas não consegue acordar nunca, Alan não conseguia acreditar que Priscila realmente estava estudando novamente na mesma escola que ele. E por isso ele precisava pelo menos de um cigarro de maconha.

Após o efeito anestésico da droga passar, Alan continuava deitado na grama do parque perto de sua casa ouvindo música no último volume, com medo de se levantar. Ao sentir alguém se aproximar, Alan tirou os fones de ouvido e colocou a mão sobre os olhos para tampar o sol e enxergar quem estava à sua frente. Era óbvio que só uma pessoa conseguiria encontrá-lo em seu esconderijo predileto. Ao sentar-se ao seu lado, Gabi começou a falar como se já tivessem iniciado aquele conversa há alguns minutos e só tivessem a interrompido por alguma inconveniência:

- Eu sei que eu não vou repetir isso novamente, Alan, porque com você nada funciona na base da insistência, mas saiba que se for preciso eu vou bater de frente com sua teimosia até você parar de fugir das consequências do quê aconteceu aquele dia com a Priscila.

Alan levantou o corpo e sentou-se ao lado da prima para poder ouví-la direito, mas assim que Gabi terminou de falar, foi como um soco no estômago:

- Segundo a Vanessa, a Pri tentou se matar há um mês mais ou menos. E mesmo a Priscila negando que tenha algo a ver com você, eu acho que o mínimo que você deveria fazer sabendo disso, é não fugir e encará-lá para resolverem tudo que ficou pendente.

Se Alan já não sabia o quê fazer há algumas horas, após aqueles breves minutos em que Gabriela havia dito aquilo, Alan se sentia triplamente perdido e culpado. Principalmente ao chegar em casa, ligar o computador e se lembrar de um e-mail que havia recebido de Priscila há mais ou menos um mês e não tinha tido coragem de abrir até hoje.

Ao abrir o e-mail ignorado há tantos dias, parecia que Alan estava revivendo todos os momentos bons e ruins que havia tido com Priscila e ao mesmo tempo parecia que havia envelhecido meia década ao terminar de ler o livro que ela havia anexado junto à mensagem de despedida. Uma cópia do e-mail também tinha sido enviada para Vanessa, o quê deixava Alan em uma posição ainda mais difícil,  como se Priscila só tivesse os dois como pessoas importantes em sua vida, mas para Alan, além da mensagem de despedida, ela também havia enviado algo mais:

"O meu amor eu guardo para os mais especiais. Não sigo todas as regras da sociedade e às vezes ajo por impulso. Erro, admito, aprendo, ensino. Todos erram um dia: por descuido, inocência ou maldade. Conservar algo que faça eu recordar de ti seria o mesmo que admitir que eu pudesse esquecer-te."

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