Alan foi para
casa o mais rápido que as quatro rodinhas do skate aguentavam. Ele havia fugido
há tanto tempo daquele momento que não conseguia pensar em outra coisa a não
ser fugir novamente. Ao chegar em casa e vasculhar em seu armário até chegar ao
novo esconderijo que havia feito após a mudança, Alan pegou o quê queria,
largou a mochila na cama e só enfiou no bolso alguns trocados.
Ele não previa
que aquela sensação voltasse tão cedo, pois após o incidente com Priscila há
mais de um ano, Alan tinha ido ao fundo do poço, mas aos poucos foi se
recuperando e completaria nove meses sem drogas se não fosse aquela novidade
amedrontadora.
Depois de ter
quase tirado a vida de Priscila em apenas sete meses de namoro, Alan foi
obrigado a se afastar dela abruptamente, já que ele havia estragado tudo que
era valioso para Priscila. Agora, como em um pesadelo recorrente em que você
sabe que está dormindo, mas não consegue acordar nunca, Alan não conseguia
acreditar que Priscila realmente estava estudando novamente na mesma escola que
ele. E por isso ele precisava pelo menos de um cigarro de maconha.
Após o efeito
anestésico da droga passar, Alan continuava deitado na grama do parque perto de
sua casa ouvindo música no último volume, com medo de se levantar. Ao sentir
alguém se aproximar, Alan tirou os fones de ouvido e colocou a mão sobre os
olhos para tampar o sol e enxergar quem estava à sua frente. Era óbvio que só
uma pessoa conseguiria encontrá-lo em seu esconderijo predileto. Ao sentar-se
ao seu lado, Gabi começou a falar como se já tivessem iniciado aquele conversa
há alguns minutos e só tivessem a interrompido por alguma inconveniência:
- Eu sei que
eu não vou repetir isso novamente, Alan, porque com você nada funciona na base
da insistência, mas saiba que se for preciso eu vou bater de frente com sua
teimosia até você parar de fugir das consequências do quê aconteceu aquele dia
com a Priscila.
Alan levantou
o corpo e sentou-se ao lado da prima para poder ouví-la direito, mas assim que
Gabi terminou de falar, foi como um soco no estômago:
- Segundo a
Vanessa, a Pri tentou se matar há um mês mais ou menos. E mesmo a Priscila
negando que tenha algo a ver com você, eu acho que o mínimo que você deveria
fazer sabendo disso, é não fugir e encará-lá para resolverem tudo que ficou
pendente.
Se Alan já não
sabia o quê fazer há algumas horas, após aqueles breves minutos em que Gabriela
havia dito aquilo, Alan se sentia triplamente perdido e culpado. Principalmente
ao chegar em casa, ligar o computador e se lembrar de um e-mail que havia
recebido de Priscila há mais ou menos um mês e não tinha tido coragem de abrir
até hoje.
Ao abrir o
e-mail ignorado há tantos dias, parecia que Alan estava revivendo todos os
momentos bons e ruins que havia tido com Priscila e ao mesmo tempo parecia que
havia envelhecido meia década ao terminar de ler o livro que ela havia anexado
junto à mensagem de despedida. Uma cópia do e-mail também tinha sido enviada para
Vanessa, o quê deixava Alan em uma posição ainda mais difícil, como se Priscila só tivesse os dois como
pessoas importantes em sua vida, mas para Alan, além da mensagem de despedida,
ela também havia enviado algo mais:
"O meu
amor eu guardo para os mais especiais. Não sigo todas as regras da sociedade e
às vezes ajo por impulso. Erro, admito, aprendo, ensino. Todos erram um dia:
por descuido, inocência ou maldade. Conservar algo que faça eu recordar de ti
seria o mesmo que admitir que eu pudesse esquecer-te."
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