sexta-feira, 6 de março de 2015

Mercúrio

Vanessa estava cansada de servir de escudo para todos e nunca ser defendida por ninguém. Às vezes sua mãe esquecia que ela só tinha quinze anos e conversava sobre seus problemas financeiros e sobre seu casamento, como se a filha fosse uma amiga, psicóloga ou contadora. Por isso, Vanessa sabia medir muito bem os gastos supérfluos da empregada e conter os mimos de sua irmã caçula. 

Quando seu pai começou a ficar explosivo, descontando sua raiva em situações bobas do cotidiano, Vanessa não precisou ouvir de sua mãe que as dívidas só estavam aumentando. Depois, quando o quarto de hóspedes se transformou no refúgio de seu pai durante a madrugada, ficou nítido que o divórcio estava se aproximando.

Agora, Vanessa já não estudaria na escola particular em que havia crescido, pois ela mesma tinha se oferecido para ajudar os pais com as despesas. Ela só não esperava que isso lhe afastaria ainda mais de sua melhor amiga, que precisava mais do quê nunca de apoio e atenção naquele momento difícil. Priscila era a única que não usava Vanessa como escudo de nada, pois a amiga era sempre o alvo de qualquer situação, boa ou ruim.

Vanessa estava cansada de equilibrar tudo a sua volta, evitando que tudo desmoronasse em cima dela a qualquer momento. Por isso, sua maior ambição era ter a coragem de jogar tudo para o alto como sua melhor amiga. Vanessa ainda não entendia porque a amiga havia feito aquilo, mas a maioria das coisas que Priscila fazia ou sentia era uma incógnita completamente incompreendida.

Ao terminar de escrever a carta intitulada de Mercúrio, Vanessa viu pela janela apenas os raios vermelhos do pôr-do-sol se extinguindo. Ela se levantou, saiu de seu quarto e desceu as escadas até o apartamento do segundo andar para entregar o quê havia escrito à sua melhor amiga.

Porém, antes de bater a campainha, Vanessa ouviu duas pessoas conversando dentro do apartamento e bem próximas da porta. Era quase possível sentir o peso dos dois corpos contra a madeira, que emitia um pequeno ruído ao se envergar ligeiramente para fora.

Vanessa foi capaz de distinguir as fricções dos braços e os estalos dos beijos, além da voz da mãe de Priscila sussurrando para que o homem que lhe prensava contra a porta, parasse de fazer aquilo, pois sua filha estava se recuperando no quarto. Vanessa já estava constrangida o suficiente com aquela situação repugnante que qualquer adolescente se sentiria enojado, pois era como presenciar seus pais fazendo sexo, já que a mãe e a avó de Priscila faziam parte da sua família desde que se conhecia por gente.

No entanto, como se ainda fosse possível, aquela situação se tornou mais nauseante quando Vanessa ouviu uma voz masculina, fraternal e bem conhecida responder à mãe de Priscila que ficaria tudo bem.

Tudo bem? Como alguma coisa poderia ficar bem naquele dia? Como aquele homem tinha coragem de dizer aquilo, de estar ali agarrando a mãe de Priscila enquanto a melhor amiga de Vanessa havia tentado se matar há três dias? Como aquele homem que havia visto Vanessa e Priscila crescerem, como se fossem irmãs, poderia ignorar aqueles dez anos de amizade e cometer aquela traição, que com certeza colocaria tudo em risco? Como aquele homem ainda tinha coragem de lhe chamar de filha todos os dias e lhe dar um beijo de boa noite?

Tudo que Vanessa conseguia pensar era no e-mail que havia recebido de Priscila minutos antes dela tentar suicídio, com aquelas frases de despedida que a amiga havia usado no início e no fim do livro que finalmente terminara de escrever. Ao vivenciar aquela situação, Vanessa entendeu como Priscila havia tido coragem de jogar tudo para o alto, de desistir de tentar ver o mundo com olhos bondosos, enquanto na verdade, o mundo realmente era podre.

As frases de superação e amizade que Vanessa havia escrito como resposta à Priscila naquela tarde, já não faziam sentido e agora, ela realmente compreendia o conteúdo do livro e os motivos da amiga. Por isso, o mais certo que ela poderia fazer, era deixar o envelope que estava em suas mãos cair despretensiosamente em frente ao apartamento 202 e torcer para que aquele homem, que nunca mais seria chamado de pai, encontrasse aquela carta e soubesse que de alguma forma, sua querida filha havia estado ali.

"Como se recupera a sua vida antiga? Como é que se continua? Quando em seu coração, você começa a entender que não há volta... Há certas coisas que o tempo não pode consertar, alguns machucados que vão tão fundo que serão eternos."

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Netuno

Priscila adorava ficar acordada até o sol nascer. Não bastava acordar bem cedo para assistir àquele episódio, pois o ritual completo dependia de seus olhos ficarem bem pequenos e inchados, devido ao sono exaustivo, para que realmente capturassem e compreendessem aquele espetáculo de esperança renovada. Dessa forma, após todos os raios de luz preencherem o dia, Priscila já não se sentia cansada, mas sim realizada e satisfeita com o quê a madrugada lhe oferecia.

Ao contrário de muitos garotos e garotas de sua idade, Priscila já não perdia seu tempo em festas que duravam a noite toda. Há exatamente um ano ela estava voltando de sua última festa completamente desacordada, dentro de um táxi nos braços de uma amiga, depois de entrar em coma alcoólico por negligência de seu ex-namorado. Priscila não o culpava, pois graças à isso, ela estava ali naquela bela manhã de verão, contemplando o final de sua obra prima.

A última linha foi escrita no último minuto, como ela havia estipulado, e agora, às 06:05 da manhã, Priscila relia a citação que colocaria no Prólogo: "Gostaria que isso não tivesse acontecido na minha época. Como todos os que vivem nestes tempos. Mas a decisão não é nossa. Tudo o quê temos de decidir é o quê fazer com o tempo que nos é dado."

Aquela frase de um de seus livros preferidos, resumia todo aquele longo ano em que estava sozinha e incomunicável. Nos primeiros meses, seus pais haviam lhe proibido de usar o celular e o computador ou de sair com qualquer amigo. E nos meses restantes Priscila havia encontrado conforto em um lugar em que ela poderia ser ela mesma sem fingir que estava se divertindo.

Priscila chegava da escola e se empolgava com a rotina, que apesar de parecer monótona, lhe oferecia algo inusitado e curioso a cada dia. Depois de fazer suas tarefas e estudar um pouco, Priscila lia e escrevia o máximo que podia. No início eram páginas e páginas sem sentido, apenas desabafos desconexos que não precisavam de muita explicação, mas depois foram tomando forma e se unindo.

Agora estava tudo compilado em mais de cem páginas de um romance que havia criado para si mesma, pois dali para frente, ela se tornaria a personagem principal de sua história, pronta para dar o rumo que sua vida deveria ter tomado há um ano. Dessa forma, ela copiou e colou a frase final no Epílogo de seu livro, mais uma vez, uma frase de um de seus livros preferidos: 

"Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém à morte. Pois mesmo os muito sábios não conseguem ver os dois lados."

Ao lado do computador, uma carta já estava pronta, mas com palavras que não eram de sua autoria, pois tudo que precisava dizer já estava gravado naquele livro. Se alguém quisesse realmente compreendê-la, teria que reler aquela carta e aquele livro mais de uma vez, até desvendarem os seus segredos. Dessa forma, Priscila escreveu à caneta o título de sua carta e releu aquele trecho de William Shakespeare, enquanto contemplava o sol entrando em seu quarto e esperava sua mente desligar daquele corpo que ela já não reconhecia:

"Somos da mesma substância que os sonhos."

"Vós, elfos das colinas e dos córregos, das lagoas tranquilas e dos bosques; e vós que rastro não deixais na areia, quando caçais Netuno nas vazantes, ou dele vos furtais, quando retorna; vós, anõezinhos brincalhões, que círculos, à luz do luar, traçais de ervas amargas, que as ovelhas recusam; e vós outros que criais por brinquedo os cogumelos noturnos e vos alegrais com o toque solene da manhã; com cujo auxílio — muito embora sejais mestres fraquinhos — fiz apagar-se o sol ao meio-dia, chamei os ventos revoltados, guerra suscitei atroadora entre o mar verde e a abóboda azulada, o ribombante trovão provi de fogo, o tronco altivo do carvalho de Jove abri ao meio, de seu próprio corisco me valendo; abalado deixei os promontórios de fortes alicerces, os pinheiros e cedros arranquei pelas raízes... Ao meu comando, os túmulos faziam despertar os que neles repousavam, e, abrindo-se, deixavam-nos sair, tão forte era minha arte. Mas abjuro, neste momento, da magia negra; uma vez conjurado mais um pouco de música celeste — o que ora faço — para que nos sentidos lhes atue — tal é o poder do encantamento aéreo — quebrarei a varinha; a muitas braças do solo a enterrarei, e em lugar fundo, jamais tocado por nenhuma sonda, afogarei meu livro."

"O inferno está deserto e os diabos estão todos aqui."