Priscila adorava ficar acordada até o sol nascer. Não bastava acordar bem cedo para assistir àquele episódio, pois o ritual completo dependia de seus olhos ficarem bem pequenos e inchados, devido ao sono exaustivo, para que realmente capturassem e compreendessem aquele espetáculo de esperança renovada. Dessa forma, após todos os raios de luz preencherem o dia, Priscila já não se sentia cansada, mas sim realizada e satisfeita com o quê a madrugada lhe oferecia.
Ao contrário de muitos garotos e garotas de sua idade, Priscila já não perdia seu tempo em festas que duravam a noite toda. Há exatamente um ano ela estava voltando de sua última festa completamente desacordada, dentro de um táxi nos braços de uma amiga, depois de entrar em coma alcoólico por negligência de seu ex-namorado. Priscila não o culpava, pois graças à isso, ela estava ali naquela bela manhã de verão, contemplando o final de sua obra prima.
A última linha foi escrita no último minuto, como ela havia estipulado, e agora, às 06:05 da manhã, Priscila relia a citação que colocaria no Prólogo: "Gostaria que isso não tivesse acontecido na minha época. Como todos os que vivem nestes tempos. Mas a decisão não é nossa. Tudo o quê temos de decidir é o quê fazer com o tempo que nos é dado."
Aquela frase de um de seus livros preferidos, resumia todo aquele longo ano em que estava sozinha e incomunicável. Nos primeiros meses, seus pais haviam lhe proibido de usar o celular e o computador ou de sair com qualquer amigo. E nos meses restantes Priscila havia encontrado conforto em um lugar em que ela poderia ser ela mesma sem fingir que estava se divertindo.
Priscila chegava da escola e se empolgava com a rotina, que apesar de parecer monótona, lhe oferecia algo inusitado e curioso a cada dia. Depois de fazer suas tarefas e estudar um pouco, Priscila lia e escrevia o máximo que podia. No início eram páginas e páginas sem sentido, apenas desabafos desconexos que não precisavam de muita explicação, mas depois foram tomando forma e se unindo.
Agora estava tudo compilado em mais de cem páginas de um romance que havia criado para si mesma, pois dali para frente, ela se tornaria a personagem principal de sua história, pronta para dar o rumo que sua vida deveria ter tomado há um ano. Dessa forma, ela copiou e colou a frase final no Epílogo de seu livro, mais uma vez, uma frase de um de seus livros preferidos:
"Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém à morte. Pois mesmo os muito sábios não conseguem ver os dois lados."
Ao lado do computador, uma carta já estava pronta, mas com palavras que não eram de sua autoria, pois tudo que precisava dizer já estava gravado naquele livro. Se alguém quisesse realmente compreendê-la, teria que reler aquela carta e aquele livro mais de uma vez, até desvendarem os seus segredos. Dessa forma, Priscila escreveu à caneta o título de sua carta e releu aquele trecho de William Shakespeare, enquanto contemplava o sol entrando em seu quarto e esperava sua mente desligar daquele corpo que ela já não reconhecia:
"Somos da mesma substância que os sonhos."
"Vós, elfos das colinas e dos córregos, das lagoas tranquilas e dos bosques; e vós que rastro não deixais na areia, quando caçais Netuno nas vazantes, ou dele vos furtais, quando retorna; vós, anõezinhos brincalhões, que círculos, à luz do luar, traçais de ervas amargas, que as ovelhas recusam; e vós outros que criais por brinquedo os cogumelos noturnos e vos alegrais com o toque solene da manhã; com cujo auxílio — muito embora sejais mestres fraquinhos — fiz apagar-se o sol ao meio-dia, chamei os ventos revoltados, guerra suscitei atroadora entre o mar verde e a abóboda azulada, o ribombante trovão provi de fogo, o tronco altivo do carvalho de Jove abri ao meio, de seu próprio corisco me valendo; abalado deixei os promontórios de fortes alicerces, os pinheiros e cedros arranquei pelas raízes... Ao meu comando, os túmulos faziam despertar os que neles repousavam, e, abrindo-se, deixavam-nos sair, tão forte era minha arte. Mas abjuro, neste momento, da magia negra; uma vez conjurado mais um pouco de música celeste — o que ora faço — para que nos sentidos lhes atue — tal é o poder do encantamento aéreo — quebrarei a varinha; a muitas braças do solo a enterrarei, e em lugar fundo, jamais tocado por nenhuma sonda, afogarei meu livro."
"O inferno está deserto e os diabos estão todos aqui."